segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sensacionalismo e Mídias

   Até algum tempo atrás, fantasia e realidade eram duas esferas completamente distintas: em meados do século XIX, era fácil olhar para um jornal e demarcar até onde ia o real e onde começava a ficção. Com o advento da Imprensa Marrom, porém, passou a ser muito difícil definir até onde o que era narrado era apenas fato. A exacerbação das fronteiras das notícias em direção ao sensacionalismo passou a permear todos os jornais de cunho popular.
   Observando-se todas as notícias publicadas hoje em dia, em impossível não se notar sempre uma tendência à tragédia, ou ao romance, ou às epopeias. O entretenimento tomou conta da imprensa.
   Não se trata de diabolizar essa conduta midiática. Na verdade, a mídia apenas reflete aquilo que a sociedade vive. Quem não se sente inebriado ao ter a impressão de que a vida real não passa de um filme?
   Nesse caso, a cobertura extremamente espetacularizada do caso do goleiro Bruno só aconteceu porque havia uma audiência que ansiava por esse tipo de programação.

   O escritor e jornalista Neal Gabler, em seu livro "Vida, o Filme", vai mais fundo:
Quando a própria vida é um veículo de entretenimento, porém, todo esse processo é obviamente alterado. Lewis Carrol, comentando sobre a mania dos cartógrafos do século XIX de querer mapas cada vez maiores e mais detalhados, certa vez avisou que os mapas poderiam ficar tão grandes que acabariam por interferir na agricultura e gaiatamente sugeriu que a própria Terra fosse usada como um mapa de si mesma. O comentário de Carrol é uma boa analogia para as novas relações entre entretenimento e vida. Ao aglutiná-los e converter tudo, desde o sequestro do bebê Lindbergh às tragédias conjugais de Elisabeth tTaylor, em entretenimento que nos afasta dos nossos problemas, não precisamos mais sair do conforto do cinema. Podemos continuar permanentemente distraídos. Ou, colocando de outra maneira, aprendemos finalmente como escapar da vida para a vida.
   Os pesquisadores Cristiane Freitas Gutfreind e Juremir Machado da Silva, no livro "Guy Debord: antes e depois do espetáculo", afirmam que já estamos em outra fase do espetáculo: o hiperespetáculo. Ao invés de haver uma contemplação das celebridades distantes, superiores, inalcançáveis, há uma contemplação de si mesmo no outro, alcançável, semelhante ao contemplador. O grande paradigma dessa nova era seria o Big Brother Brasil, onde, com a fama ao alcance de qualquer um, passaríamos da fase da simples manipulação para a fase da total imersão no espetáculo midiático.
   A espetacularização das notícias e a transformação da sociedade em Sociedade do Entretenimento, não devem ser simplesmente diabolizadas ou combatidas. É um novo paradigma social, que deve ser estudado e compreendido em toda a sua inteireza.

5 comentários:

  1. Será que só está na mídia pq tem audiência? ou acaba tendo audiência pela insistência da mídia?

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  2. Talvez as duas coisas se completem. Na verdade, a mídia reflete o que está na sociedade, que vive o entretenimento como regra de vida. Há uma curiosidade mórbida nas pessoas que tende a preferir as tragédias às notícias de interesse público, por exemplo.
    Mas não há de se duvidar que a mídia tem grande poder de influência sim. Lógico que há pessoas que, caso tivessem acesso a outras fontes de informação não sensacionalistas, optariam por esse modelo.

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  3. Olá Marcos, vim agradecer sua visita ao blog Viva la Vida, volte sempre!

    Tb estou aq: http://meuprojetopiloto.blogspot.com/

    Abraços!

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  4. Antigamente o mundo só era notícia quando a notícia vivia a realidade... agora a notícia é o mundo onde a realidade vive a notícia, a novidade...

    Texto muito interessante e actual!

    Beijinho

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  5. Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog A dança das Palavras. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs





    Narroterapia:

    Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.



    Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

    http://narroterapia.blogspot.com/

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